Não te via há quanto tempo? Não digo em pensamento, falo da minha íris captar tuas cores e trazer para meu pensamento e sensação real de você ali, poucos metros. Não te via a quanto tempo? Um ano? Dois? Tempo esse que se colocar numa folha em fatos e datas eu não consigo dizer um dia inteiro, um final de semana verdadeiro, uma semana bem vivida. Não te via a quanto tempo? No pensamento? Bom, ele ainda não deixa você se despedir. Ele insiste, recria e revive seja em sonho seja acordado, a constante linha do tempo que construímos. Esse tempo eu posso até desenhar para ti, mas o desenho que eu crio é o mesmo que você olha da janela do seu quarto todas as manhãs? É o mesmo céu que eu vejo? Vemos o mesmo céu sem nuvens e sem vento? Não te via a quanto tempo?
Eu te vi. Num relance, movimento automático, olho para trás reparando num movimento, num corpo e numa dança entre a multidão desfocada. Eu te vi. Não queria, mas te vi. O movimento desalinhado e estabanado meu denunciou o que meu pensamento a tanto tempo imaginou. Eu te vi, mas não queria. Imaginei nesses dois (é um) anos que não te via, durante os traços e as cores que colocava no desenho que chamo de despedida, que o dia que eu te visse por aí, ao acaso, sem saber, seria o dia da despedida. Mas seu sorriso não me deixou dizer, nem acenar, nem imaginar outra coisa a não ser, que eu te via. Seu sorriso, me viu, não sorria pra mim, mas me viu. E eu não sabia o que fazer com aquilo que via. Fingi não ver.
Nesse momento de completo delírio. Enebriado já pelo lugar e pessoas que dividia, pela conversa, o barulho, fumaça e líquidos derrubados ao chão. Eu me perdi. Eu te vi e me perdi. Fingi que não vi, mas me perdi. Você sumiu na multidão da mesma forma mágica que apareceu perto de mim, não consegui notar o tom do seu cabelo, nem como estava amarrado, nem a cor do batom (se é que tinha), nem o cheiro, textura da pele, gosto e suor. Não precisava. Enebriado por te ver, tudo veio a tona. E eu me senti perdido. Completamente cego. Por te ver? Mas eu não te vi...não devia ter visto.
Cai de cabeça numa sequência de ações aleatórias tentando me apegar ao que era real. Queria ser cético e provar que o que meu coração pulava e batia desregulado era o que bebi e o que fumei. Não devia ser nada sério, mais um gole, mais outro, uma tragada de um cigarro, dois, 3, 5 e já estaria com a visão corrigida e pronta para ver racionalmente o que estava a minha frente. Um lugar perfeito para fechar os olhos, esquecer do que passou e aproveitar aquele momento. ZUM, um rápido e ligeiro pensamento corta esse raciocínio me gritando ao ouvidos. MAS ELA TE VIU, você viu ela? Racionalmente? Vi não querendo ver. Emocionalmente? Não vi o quanto gostaria. Por isso o movimento padrão procurando um trago para melhorar o som para o ouvido e coração me colocou de novo perto de você, passa por mim, rápido, olhou para o chão, sua amiga não. Sua amiga me viu, eu acenei, algo com as mãos que desesperadamente parecia algo perdido, e era. Porque eu forçava meus olhos para te "desver". Mas eu te vi.
Duas vezes. Qualquer cientista diria para mim que estava em devaneios loucos e de valia nenhuma. Qualquer racional me colocaria na realidade de que isso é mais comum e mais simples do que eu desenhei. Só que a despedida nunca é eterna. A despedida real, feita de dentro para fora é. Mas como despedir se eu te vejo por aí, e por aqui?
Eu te vi, mas não precisava. Eu colocava em fatos e provas de que te ver não era necessário. Estava cheio de outros líquidos, aromas e sentidos. A visão de você passar por mim com sua cor e seu calor, já tinha saído dos meus planos mais malucos. Mas você passou, deu cor, luz e calor naquele pequeno e rápido momento que você me viu e eu te vi. Mas não nos vimos. Não nos sentimos, nem nos esquentamos nem pintamos o chão, o céu e tudo a nossa volta. Como sempre gostamos de desenhar para os outros e pra gente principalmente.
Em uma terceira vez, escondido em casa, trancado no quarto, fugindo da sua sombra talvez, e do seu olhar, eu te vi mais uma vez. Não te via, por que em sonho eu fechava meus olhos. Embriagado com tudo que eu virei em goles generosos enquanto te via. Eu te vi, mas não. Você me viu. Em sonho veio até mim e me deu um beijo longo, pausado, que me fez levantar de onde eu tinha caído, jogou fora o que me enchia a dois (é um) anos, e me encheu de novo com algo forte e quente que não sentia a todo esse tempo. Eu não te vi, mas te senti. Você veio me dizer que me viu? Ou veio se despedir.
Me perdi nesses minutos aqui explicando o óbvio. Fazendo rodeios e adiando palavras e dando razão a detalhes tão meus, só pra dizer que eu te vi. E amei te ver chegar, passar, sorrir. Mas não queria te ver sumir por aí.

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