É começo de outono, o frio chega de mansinho. No geral, é a época que o vento chega frio aos poucos e que congela a madrugada e faz dar calafrios nas manhãs. Ainda atormentado com a impaciência do verão, ele tenta ganhar mais espaço, dia após dia. Tempo de nariz entupido, resfriados, pés gelados, filme e pipoca.
A uns anos atrás, dois adultos já com seu primeiro filho e ainda jovens, esperam mais alguém.
Ela tem a cara da estação que nasceu.
Tem a pele clara como as garotas européias que se esquentam esbanjando sorrisos brancos. Clara como começo de manhã fria, de sol alto, e céu limpo, sua pele é a luz do sol refletida da forma mais bela, e na intensidade mais bela.
O vento uiva. E isso a enfurece muito. Vai sentir esse vento, e vai passar frio. E como passa frio! Reclama de qualquer mudança, treme, sofre e pede refúgio, como uma criança no fim da tarde correndo do banho, ou pedindo colo por causa de um sonho ruim. Qualquer sinal de vento, é motivo pra coberta, filme e "não desgruda de mim".
Ela tem o sorriso de filme com as árvores de folhas vermelhas caindo devagar no chão, o sorriso depois de uma xícara de chocolate quente, o sorriso de lábios sinceros, depois de um carinho sincero.
Ela é o meu outono.
Sempre me senti vivo e feliz no verão, com sol, luz e calor. Ela me mudou. Aprendi a ser inconstante, de sorriso sincero e alma pedindo calor, que se sente fria pelo mundo lá fora.
Lembro como se fosse ontem.
"Sai do carro rindo, afinal fazia traquinagem. Não podia ter saído pra outra cidade de carro. Mas fui, me sentia dono do mundo. Cidade nova, só conhecia um cara, a avó dele era minha vizinha, sempre tocávamos violão muito tererê e papo de moleque.
Nunca soube porque decidi ir, nunca gostei do que fui comprar. Mas fui. Entrei na lan house. Era domingo, sol ardido e vento frio. Não sei o que tinha feito no dia anterior, mas provavelmente algo não tão legal e por isso queria aproveitar o domingo. Segundo meus amigos o único lugar onde venderia seria ali, e assim entrei com o compromisso de comprar, pagar e sair.
Sentada num banco, alto, com uma das mãos no queixo e outra no mouse, olhava com os olhos indiferentes pro computador, e tinha razão de estar assim, era domingo, é preguiçosa, e achava melhor a festa que perdia, do que o trabalho. Não olhou diretamente, apenas educada perguntou o que eu gostaria. E pow! Perguntei e ela com total convicção da superioridade feminina me corrigiu, e em seguida sorriu. Sorriu, rápido mas foi o tal do sorriso, sincero, boca grande, dentes lindo, adorei da primeira vez que vi os seus lábios. E assim de reação, em reação dentro a minha cabeça explodiu, algo que pra mim, até ela ouviu, e me atingiu o coração. Alguns estralos. "pa pow pa pow" pronto, olhar de bobo, vermelho de vergonha e estranho comportamento. Atingido por ela em cheio! Paguei com total calma e delicadeza. Ela foi gentil. Ponto pra mim. Saí voltei pra minha cidade, e de lá, dos meus sonhos, ela tem ficado constantemente, desde daquele dia."
Lembro todo dia, do momento que ela me corrigiu e sorriu. Pra mim não foi só aquele dia, vem sendo assim há 3 anos e nesse tempo ela me corrigi e sorri pra mim a todo momento, do jeito dela, de nariz empinado, pela clara, lindo sorriso e com muita sutileza no olhar. Cresceu absorvendo tudo com exagero e tomando o mundo nas costas sozinha, e como eu a idolatro por isso.
E no meio disso tudo, eu.
Como todo verão. Calorento, explosivo e independente.
E por causa disso tudo, ela.
Como todo bom outono. Ela só quer afago, abraços, amores e pipoca.